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Santa Ceia: 1 Reis - O verdadeiro encrenqueiro

PREGAÇÃO NO CULTO DE SANTA CEIA*

 

Referência: 1 Reis 18.1-18

 

INTRODUÇÃO: No tempo de seca muito prolongada o clima é sempre quente, seco e poeirento: A superfície da terra torna-se dura, com uma crosta leve, e, assim como o céu se descora, assim a terra empalidece, tornando-se rosada, na região vermelha, e branca, na região cinzenta.

 

Nos barrancos cortados pela água, a terra esfarela, caindo em pequenos fios secos. Roedores e formigas pulam como pipoca.

 

E, à medida que o sol se torna mais intenso, as folhas tenras das arvores perdem rigidez e verticalidade; inclinam-se a princípio numa curva, e, depois, quando a força central enfraquece, cada folha pende desanimadamente.

 

Chegando no meio do ano, o sol queima mais incisivamente, e seca severa torna se numa bacia de poeira.

 

Um sobrevivente já descreveu as tempestades de poeira do período de seca severa.

 

Primeiro, surgia um brilho amarelo no horizonte, e, ao passo em que a poeira conquistava o céu ardente, ele se tornava alaranjado e, depois, marrom, e o sol era ofuscado.

 

Durante os primeiros minutos, ficávamos apenas olhando, reunidos em grupos mudos, então fechávamos as janelas a despeito do calor escaldante de 40 graus, e as mulheres tapavam as fendas com tiras de tecido num esforço patético de conter o monstro.

 

Nunca funcionava. A poeira encontrava aberturas e juntas soltas e se amontoava nos cantos, viajava pelo ar. Às vezes, podíamos ouvi-la no telhado.

 

Houve um longo período quente, seco e poeirento nos dias de Elias que durou três anos. "Muito tempo depois", dizem as Escrituras (1Rs 18.1), ressaltando a cansativa rotina diária da seca.

 

Durante mais de três anos, não havia chovido naquela terra, nem havia caído orvalho (1Rs 17.1). "[...] a fome era extrema em Samaria" (1Rs 18.2).

 

 

Os riachos e as fontes de agua haviam se secado. Nenhum campo verde cobria os vales e colinas. Não havia flores nas figueiras nem fruto nas videiras, e o trabalho nas oliveiras foi em vão. O solo estava rachado e infértil... E, provavelmente, ao longo das estradas na vizinhança das aldeias e cidades estavam jogados os corpos enrijecidos dos pobres que não haviam resistido à severidade de suas privações.

 

Essa seca mortal serve como intermédio entre dois poderosos atos de Deus. No final do capítulo 17, Deus ressuscitou um morto. Mais adiante, no capítulo 18, enviará fogo e chuva dos céus.

 

Mas no momento Israel sofre os efeitos de uma longa seca, que diminui o ritmo da história e demonstra a desgraça causada por ela nessa terra.

 

Não havia como escapar do julgamento de Deus. Até mesmo o rei estava nos campos procurando alimento para seus animais (1Rs 18.5), pois uma posição alta não oferece qualquer proteção no dia do julgamento divino!

 

O povo de Israel havia depositado sua fé em Baal, o deus da chuva, mas Baal não conseguiu ajudá-los agora. O Deus de Israel, o Senhor vivo e Deus único, havia fechado os céus, causando assim uma fome desesperadora na terra.

 

1. O santo secular

 

O capítulo 18 abre com uma disputa sobre quem é o culpado sobre os problemas na sociedade. Por que essa seca havia ocorrido? Quem era responsável por essa catástrofe? Que o encrenqueiro verdadeiro se levante, por favor!

 

Alguns identificaram Obadias (provavelmente não o autor do livro de Obadias) como um dos perturbadores. Em seu retrato de Elias, F. B. Meyers esboça um contraste nítido entre Elias e Obadias.

 

Ele argumenta que, ao servir como camareiro (administrador) de Acabe, Obadias havia se comprometido com o mundo. Havia dado preferência a uma carreira secular, abandonando seu chamado espiritual. Alguns acreditam que Obadias cometeu um erro ao escolher servir ao mau rei Acabe.

 

Eles observam que Obadias costuma chamar esse detestável rei de seu "senhor" (1Rs 18.10-11,14), o que sugere que teria dividido sua lealdade entre dois mestres (cf. Mt 6.24).

 

Outros observam também que faltava coragem a Obadias. Ele tinha medo de informar Acabe que Elias havia aparecido. "Em que pequei", Obadias pergunta a Elias, "para que entregues teu servo na mão de Acabe, e ele me mate?" (1Rs 18.9, cf. 1Rs 17.18).

 

Esse é o tipo de pergunta pragmática que uma pessoa costuma fazer após ter se ocupado de mais com a política.

 

Obadias estava tentando salvar sua própria pele. Se realmente fosse um homem de Deus, teria assumido uma postura reta e, há muito tempo, sido demitido por Acabe.

 

Por isso, Meyer o descreve assim: "apesar de ser um bom homem, evidentemente faltavam-lhe força moral, coragem, vida vigorosa e caráter".

 

Isso significa que Obadias era mundano, covarde e ímpio? Não, Obadias não era o verdadeiro encrenqueiro.

 

Apesar de seu chamado secular, há evidências de que era um santo secular; apesar de estar no mundo, não era inteiramente do mundo (cf. Jo 17.14-16; 2Co 10.3).

 

Sim, Obadias não era tão corajoso como Elias. No entanto, era seguidor do Deus de Israel, e em vários aspectos ele serve como exemplo santo para os cristãos em empregos seculares difíceis.

 

Obadias ocupava um cargo político importante. Ele era "o mordomo" (1Rs 18.3). Em outras palavras: era chefe do estado-maior. Mas observe o caráter que esse homem demonstrou em seu cargo secular: "temia muito ao SENHOR" (1Rs 18.3).

 

Obadias não era um crente nominal ou um frequentador ocasional da igreja. Era santo, devoto e dedicado ao Senhor; portanto, todos os seus outros atos devem ser interpretados nesse contexto.

 

Como um seguidor de Deus permanece fiel a seu Senhor num MERCADO SECULAR? Obadias sofria uma grande pressão para fazer compromissos. O chefe de Obadias não era um homem fiel a Deus.

 

Pelo contrário, Acabe era um homem mau, que se opunha à fé bíblica e ao discipulado de Deus.

 

É fácil imaginarmos Obadias chegando em seu grupo de oração semanal e dizendo: "Gostaria que orassem por minha situação no trabalho, especialmente por meu chefe, que não conhece o Senhor pessoalmente".

 

No entanto, Obadias não usou a depravação de Acabe como desculpa para um trabalho de segunda. Ele foi leal a seu empregador. Visto que Obadias era responsável pelo palácio, ele deve ter sido um dos conselheiros mais confiáveis de Acabe.

 

Por isso, em meio a uma crise nacional, Acabe pediu ajuda a Obadias: "Disse Acabe a Obadias: Vai pela terra a todas as fontes de água e a todos os vales; pode ser que achemos erva, para que salvemos a vida aos cavalos e mulos e não percamos todos os animais.

 

Repartiram entre si a terra, para a percorrerem; Acabe foi à parte por um caminho, e Obadias foi sozinho por outro" (1Rs 18.5-6).

 

Obadias foi um servo fiel a seu mestre e um súdito leal ao rei, não porque Acabe era um homem justo, mas porque sabia que a autoridade de Acabe havia sido ordenada por Deus (cf. Rm 13.1).

 

Todo cristão deveria fazer o mesmo tipo de trabalho num emprego secular: um trabalho de primeira, respeitoso e leal. Obadias é um exemplo daquilo que Paulo quis dizer ao exortar os escravos de sua época:

 

Servos, obedecei em tudo ao vosso senhor segundo a carne, não servindo apenas sob vigilância, visando tão somente agradar homens, mas em singeleza de coração, temendo ao Senhor. Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens, cientes de que recebereis do Senhor a recompensa da herança. A Cristo, o Senhor, é que estais servindo (Cl 3.22-24).

 

A lealdade de Obadias a Acabe não o impediu de ser fiel a Deus. Quando chamou Acabe de "senhor", ele o fez por respeito, reconhecendo que Deus era seu mestre supremo.

 

Tratou Elias com o mesmo respeito, chamando-o de "senhor" também (1Rs 18.7). Enquanto Acabe não lhe pedisse algo que violaria os mandamentos de Deus, Obadias continuaria sendo completamente leal.

 

Ele pode não ter falado nada sobre seu compromisso espiritual, mas quando surgiu uma situação crítica, obedeceu a Deus, e não os homens (cf. At 5.29). Ele não permitiu que sua lealdade ao rei de Israel minasse sua lealdade ao Rei dos reis.

 

2. A coragem de Obadias

 

A prova da piedade de Obadias veio quando Jezabel perseguiu os profetas de Deus. Jezabel era a primeira-dama de Acabe — uma mulher descrita adequadamente como "uma mulher decidida, um magnata feminino, uma bruxa, uma sanguinária".

 

Jezabel começou trazendo deuses estrangeiros para o palácio do rei (1Rs 16.31-33). Como se isso não bastasse, a rainha então passou a perseguir o povo de Deus.

 

O que Obadias fez quando a esposa do chefe lhe declarou guerra e ele se viu tentado a comprometer sua fé? "[...] quando Jezabel exterminava os profetas do SENHOR, Obadias tomou cem profetas, e de cinquenta em cinquenta os escondeu numa cova, e os sustentou com pão e água" (1Rs 18.4).

 

Obadias não era covarde. Ele agiu para Deus, fazendo algo que apenas um seguidor muito devoto faria. Arriscando sua carreira e segurança pessoal, Obadias usou sua influência política para proteger todo um colegiado de profetas.

 

Os cristãos são chamados a demonstrar a mesma coragem quando confrontados com DILEMAS MORAIS NO TRABALHO. Talvez um colega lhe peça para encobrir um erro com uma mentira insignificante.

 

O chefe pode querer que regras sejam ignoradas em beneficio de um cliente. Uma empresa pode até seguir uma prática que é fundamentalmente desonesta. A obrigação de um cristão para com Deus é muito simples numa situação assim: obedecer a Deus, e não os homens.

 

Se formos tentados a cometer algo imoral no trabalho, o Espírito Santo certamente incomodará nossa consciência.

 

Se não tivermos certeza se algo é certo ou errado, devemos procurar a resposta nas Escrituras e aconselhar-nos com amigos cristãos.

 

Mas quando descobrimos a coisa certa a fazer, somos chamados a fazer a coisa certa e então confiar que Deus será glorificado por meio da nossa integridade.

 

Obadias fez a coisa certa. Reuniu 100 profetas e os escondeu em cavernas, provavelmente no Monte Carmelo, onde há centenas de cavernas. Podemos aprender algo dessa ação sobre a providência de Deus. Deus protegeu 101 profetas, mas não os salvou todos da mesma forma.

 

Deus usou meios milagrosos para salvarElias (lembre-se da viúva de Sarepta, por exemplo), mas usou meios ordinários para salvar 100 profetas. Deus usou corvos para levar pão e carne a Elias. Essa providência era extraordinária e milagrosa.

 

Mas quando o restante dos profetas passou fome, Deus usou seu servo Obadias para fornecer-lhes comida e água.

 

Apesar de Deus ser capaz de satisfazer nossas necessidades por meio da providência milagrosa, ele normalmente recorre a meios ordinários.

 

Essa lição é importante para nossa igreja que estamos clamando por sinais e milagres; numa época de busca e sede pelo milagroso.

 

Muitos irmãos talvez não entenda porque a maioria desses sinais não esteja acontecendo na igreja local. Alguém já me perguntou porque esses milagres, como ressuscitar mortos, curas milagrosas, endemoniados, não se vê em nossa igreja, constantemente.

 

Deus pode fazer "as coisas", e, às vezes, ele as faz. Ele fez "as coisas" para Elias — até ressuscitou um morto. É fácil imaginar como isso seria usado para fins propagandísticos pela igreja contemporânea.

 

Os agentes publicitários de Elias venderiam marcadores de livros com "A oração de Sarepta" e publicariam As receitas de Querith, um livro com centenas de variações para preparar pão e carne.

 

Elias se tornaria um curador da fé, ressuscitando mortos em um canal da TV paga. Após seu programa, veiculariam comerciais para a Dieta de Elias.

 

Entenda, portanto, que Deus não fez "as coisas" para os outros 100 profetas.

 

Não "as coisas" milagrosas. Deus providenciou para eles de modo comum e nada espetacular. No entanto, essa ajuda foi igualmente providencial. Os profetas na caverna tinham os mesmos motivos para louvar a Deus.

 

Podemos até imaginar um profeta se escondendo na caverna de Obadias, ouvindo algum sermão de Elias e então chegando à conclusão que um fiel verdadeiro é alimentado apenas por corvos. Então, ele sai à procura de seu próprio ribeiro. Esse profeta teria morrido de fome, pois estava se afastando da providência ordinária de Deus.

 

Podemos clamar pela providência extraordinária de Deus, mas precisamos confiar também em sua providência ordinária. Podemos e devemos orar na "espere de um milagre urgente".

 

Mas também não devemos nos esquecer que se tomarmos 1Reis 18 como regra, as chances são de pelo menos 100 por 1 de que Deus providenciará a maioria das coisas de modo ordinário.

 

Isso é um encorajamento para momentos em que esperamos a providência de Deus. Deus providenciará, as vezes milagrosamente, mas normalmente ele fará de forma ordinária.

 

Todo o trabalho que tivemos procurando algum emprego em algum momento as portas se abrirão. Um amigo na igreja nos indicará o um emprego ou um apartamento que estivemos procurando; um problema de saúde será resolvido pela medicina tradicional.

 

Muitas vezes, o Senhor usará a fidelidade de fiéis como Obadias para providenciar aquilo que precisamos.

 

Obadias se mostrou fiel a Deus e a Elias. Sim, às vezes, sentiu medo. Obadias ficou preocupado que Acabe pudesse matá-lo quando lhe contou que havia encontrado Elias (1Rs 18.9,12,14).

 

Elias estava obrigando Obadias a professar sua lealdade suprema, e Obadias estava relutando com as consequências que isso teria para seu relacionamento com o rei e para sua própria vida. Seus temores não eram infundados.

 

Obadias havia testemunhado de primeira mão a insistência com que Acabe havia perseguido Elias:

 

"Tão certo como vive o SENHOR, teu Deus, não houve nação nem reino aonde o meu senhor não mandasse homens à tua procura; e, dizendo eles: Aqui não está; fazia jurar aquele reino e aquela nação que te não haviam achado. Agora, tu dizes: Vai, dize a teu senhor: Eis que aí está Elias" (1Rs 18.10-11).

 

Quem não teria medo numa situação assim? Como chefe do estado-maior de Acabe, Obadias conhecia muito bem o TEMPERAMENTOde seu chefe e sabia quanto ele odiava Elias.

 

Conhecia também os métodos que Acabe usava para lidar com seus adversários políticos.

 

Quando Obadias disse: "Em que pequei para que entregues o teu servo na mão de Acabe para que seja morto?" (1Rs 18.9), na verdade, estava dizendo: "Você deve estar brincando, Elias! Você não conhece o Acabe tão bem quanto eu o conheço. Quando ele descobrir que me encontrei com você, ele me matará".

 

A segunda objeção de Obadias revelou sua falta de confiança no cuidado soberano de Deus: "Poderá ser que, apartando-me eu de ti, o Espírito do SENHOR te leve não sei para onde, e, vindo eu a dar as novas a Acabe, e não te achando ele, me matará; eu, contudo, teu servo, temo ao SENHOR desde a minha mocidade" (1Rs 18.12).

 

Obadias temia que Elias pudesse desaparecer novamente antes de Acabe o encontrar. Nesse caso, o rei ficaria ainda mais irritado com Obadias. Na verdade, Obadias temia que fosse morto:

 

"Acaso, não disseram a meu senhor o que fiz, quando Jezabel matava os profetas do SENHOR, como escondi cem homens dos profetas do SENHOR, de cinquenta em cinquenta, numas covas, e os sustentei com pão e água? E, agora, tu dizes: Vai, dize a teu senhor: Eis que aí está Elias. Ele me matará" (1Rs 18.13-14).

 

No entanto, a despeito de todos os seus temores, Obadias obedeceu o Senhor. E é isso que importa. No fim, ele foi fiel ao Senhor: "Então, foi Obadias encontrar-se com Acabe e lho anunciou; e foi Acabe ter com Elias" (1Rs 18.16).

 

Obadias teve a coragem de fazer o que o Senhor lhe ordenara, apesar de seu medo. Isso também é o padrão da nossa própria coragem:

 

Estamos dispostos a fazer as coisas difíceis que Deus nos ordena, apesar de todos os nossos medos? Apesar dos nossos medos devemos fazer o que é certo.

 

E estamos dispostos a declarar publicamente o nosso compromisso com Cristo?

 

Não sabemos como Acabe reagiu quando Obadias lhe transmitiu a mensagem do paradeiro de Elias, mas talvez seja esse o ponto: não importa como Acabe reagiu. O dever de Obadias — e o nosso também — é simplesmente obedecer a ordem de Deus.

 

3.O profeta perseguido

 

Elias teve ainda mais coragem do que Obadias — o tipo de coragem que resulta de um relacionamento vivo com o Deus vivo. Elias não era o verdadeiro encrenqueiro, tampouco Obadias o era.

 

Quando o Senhor ordenou que Elias fosse até o rei Acabe, o profeta fez o que sempre fazia e obedeceu o Senhor:

 

"Muito tempo depois, veio a palavra do SENHOR a Elias, no terceiro ano, dizendo: Vai, apresenta-te a Acabe, porque darei chuva sobre a terra. Partiu, pois, Elias a apresentar-se a Acabe" (1Rs 18.1-2).

 

Quando o Senhor disse: "Vá", Elias não perguntou: "Até onde?"; ele simplesmente foi.

 

O fato de que Elias não é um encrenqueiro se evidencia em sua forte resposta aos medos de Obadias: "Tão certo como vive o SENHOR dos Exércitos, perante cuja face estou, deveras, hoje, me apresentarei a ele" (1Rs 18.15).

 

Elias conhecia seu Deus. Apesar de viver numa cultura que afirmava a morte de Deus, ele não havia perdido seu rumo teológico. Sabia que servia ao Deus vivo. Por isso, decidira que continuaria servindo a esse Deus fazendo exatamente o que Deus lhe ordenava.

 

Elias não era encrenqueiro, mas Acabe achava que era. O rei acreditava que o profeta de Deus havia causado problemas para Israel e, por isso, tentou jogar a culpa pela seca em Elias.

 

Por fim, o rei e o profeta tiveram seu encontro há muito antecipado e amplamente divulgado: "foi Acabe ter com Elias. Vendo-o, disse-lhe: És tu, ó perturbador de Israel?" (1Rs 18.16-17) — ou em termos mais literais: "É você, aquele que trouxe maldição sobre Israel?".

 

A Bíblia não explica por que Obadias e Acabe tiveram tantas dificuldades em reconhecer Elias. Um pouco antes, quando "Estando Obadias já de caminho, eis que Elias se encontrou com ele.

 

Obadias, reconhecendo-o, prostrou-se com o rosto em terra e disse: És tu meu senhor Elias?" (1Rs 18.7). Talvez Elias tivesse uma aparência selvagem após passar tanto tempo no deserto ou, talvez, havia se disfarçado de alguma forma.

 

Ou, ainda, talvez Acabe estivesse à procura de Elias já há tanto tempo que não pôde acreditar quando finalmente o encontrou — afinal de contas, o rei havia organizado uma caça internacional a esse homem.

 

Obadias explicou "não houve nação nem reino aonde o meu senhor não mandasse homens à tua procura; e, dizendo eles: Aqui não está; fazia jurar aquele reino e aquela nação que te não haviam achado" (1Rs 18.10).

 

Acabe queria ter certeza de que nenhuma das nações vizinhas o acolhesse como exilado. O profeta era o homem mais procurado de Israel.

 

Acabe organizou essa caça porque responsabilizava Elias pessoalmente pela fome na terra: "És tu, ó perturbador de Israel?" (1Rs 18.17). Acabe não saudou Elias nem o recebeu com respeito; em vez disso, acusou-o de traição.

 

A acusação de Acabe é uma advertência sóbria daquilo que acontece com o povo de Deus em dias de julgamento. Primeiro, o mundo se recusa a ouvir a Palavra de Deus. Depois, acusa o povo de Deus.

 

Quando surgem problemas, as pessoas deste mundo não se voltam para Deus, mas contra ele e seu povo.

 

Às vezes, os inimigos de Deus farão de tudo para matar o povo de Deus(cf. Jo 16.2), assim como Jezabel atacou os profetas de Deus. Com uma lista que incluía cada seminarista do país, ela foi atrás dos profetas do Senhor (1Rs 18.4,13).

 

Sempre foi assim. Os líderes religiosos de Israel disseram basicamente a mesma coisa sobre o apóstolo Paulo. Levaram-no para ser julgado por Félix, dizendo: "tendo nós verificado que este homem é uma peste e promove sedições entre os judeus esparsos por todo o mundo" (At 24.5, cf. At 16.20 e 17.6).

 

A obra pacífica de pregar um evangelho representa uma ameaça às fortalezas do mal. Os valores do reino do céu são uma inversão tão completa dos valores do reino deste mundo que os servos fiéis de Deus sempre são percebidos como encrenqueiros pelo mundo.

 

A mesma coisa aconteceu na igreja primitiva. Em sua obra A vida de Cláudio, Suetônio fala de "perturbações" que irromperam em Roma por causa de uma pessoa chamada "Chrestus", o que indica que haviam surgido problemas por causa do nome de Cristo.'"

 

Nos tempos de Tácito, os membros da igreja foram falsamente acusados da prática de INCESTOe CANIBALISMO, como parte da adoração pública por causa de seu amor pelos "irmãos e irmãs" e porque comiam e bebiam "o corpo e o sangue de Cristo".

 

Sob Nero, os cristãos foram responsabilizados pela queima de Roma e sumariamente executados. Durante vários séculos, o cristianismo era considerado um crime capital no Império Romano.

 

Como observou Tertuliano: "Se o rio Tigre tiver água de mais, ou o Nilo, de menos, todos gritam: 'Joguem os cristãos aos leões '".

 

"Não esqueçamos por que os cristãos eram mortos", escreveu Francis Schaeffer. "Não eram mortos porque adoravam a Jesus. [...] Ninguém se importava com quem alguém adorava, enquanto os adoradores não perturbavam a unidade do Estado, focada na adoração formal de César. Os cristãos eram mortos porque eram rebeldes."

 

A mesma coisa aconteceu durante a Reforma protestante na Europa. Quando Martinho Lutero começou a pregar a justificação pela graça por meio da fé somente, o Papa o chamou de "vírus pestilento".

 

João Calvino, por sua vez, escreveu suas Institutas para defender a Reforma contra aqueles que diziam que os cristãos protestantes eram perturbadores fora da lei. ''

 

O mundo acreditava que Jesus também era um encrenqueiro. Na verdade, ninguém jamais causara mais problemas do que Jesus!

 

Quando ele foi levado para ser julgado por Pilatos, seus acusadores disseram: "Encontramos esse homem pervertendo a nossa nação. [...] Ele alvoroça o povo, ensinando por toda a Judeia, desde a Galileia, onde começou, até aqui" (Lc 23.2,5).

 

A pregação do evangelho leva alguns homens e mulheres para Deus em fé e arrependimento, mas, ao mesmo tempo, transforma outros homens e mulheres em inimigos de Deus e de seus mensageiros.

 

A vinda de Jesus Cristo para o mundo teve e continua a ter esse efeito duplo. Para aqueles que o aceitam, o domínio de Jesus traz paz; para aqueles que se opõem a ele, parece trazer apenas problemas.

 

Esses exemplos nos lembram de que não devemos nos surpreender quando o mundo atacar a igreja de Jesus Cristo. A maioria dos cristãos no Ocidente não reflete sobre a perseguição religiosa tanto quanto deveria.

 

Fato é que a igreja está enfrentando uma perseguição mais severa agora do que em qualquer outro momento em toda a sua história.

                              

A "Annual Statistical Table on Global Mission" chegou à conclusão que, desde 1970, houve mais do que 200 mil mártires cristãos por ano.

 

Não importa se esse é um número exato, mas ele serve para nos lembrar de que o Brasil e a América do Norte não é o centro daquilo que Deus está fazendo no mundo.

 

Cristãos em lugares como China, África Oriental, Oriente Médio e América do Sul estão sofrendo e morrendo por sua fé em Jesus Cristo, nas mãos de comunistas, fascistas, muçulmanos e hindus.

 

Agora, temos vivenciado os primeiros indícios de perseguição religiosa no Brasil e nos Estados Unidos. Muitas vezes, as mídias tratam os cristãos evangélicos como bodes expiatórios para os problemas sociais.

 

Na medida em que a sociedade continua a se desenvolver, essa postura pode levar a represálias econômicas, ameaças jurídicas e violência física.

 

Não é por acaso que igrejas são escolhidas como alvo, pois é a igreja que representa a ameaça mais forte à intolerância.

 

O ódio do mundo não deveria nos desencorajar nem amedrontar. Pela graça de Deus, os cristãos podem ser tão audaciosos quanto Elias, sem medo diante de um rei mau. Jesus oferece o seguinte encorajamento:

 

"Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia" (Jo 15.18-19).

 

4. O encrenqueiro verdadeiro

 

O encrenqueiro verdadeiro não era nem Obadias nem Elias. Não, o verdadeiro encrenqueiro era o rei Acabe.

 

Acabe tentou responsabilizar Elias por todos os problemas, mas a resposta de Elias foi esta: "Respondeu Elias: Eu não tenho perturbado a Israel, mas tu e a casa de teu pai, porque deixastes os mandamentos do SENHOR e seguistes os baalins" (1Rs 18.18).

 

Esse é o auge do primeiro confronto entre Acabe e Elias. Seu encontro se parece com a cena no fim de um romance policial quando a identidade do assassino é revelada.

 

Elias aponta o dedo para Acabe: "Eu não tenho perturbado a Israel, mas tu e a casa de teu pai, porque deixastes os mandamentos do SENHOR e seguistes os baalins" (1Rs 18.18).

                       

O rei é aquele que trouxe a fome severa para o seu país. A palavra que Elias usa para "perturbar" é a mesma palavra empregada em Josué 7.25, para descrever a derrota militar sofrida por Israel quando Acã roubou o espólio que pertencia a Deus.

 

Quem traz o julgamento de Deus contra uma nação é sempre o povo que vive em rebelião contra Deus.

 

Elias acusou Acabe de dois tipos de pecado: OMISSÃO E COMISSÃO. Um pecado de omissão é algo que você deveria ter feito, mas não fez. Trata-se de alguma área na vida em que deixamos de seguir a Deus.

 

Um pecado de COMISSÃO, por sua vez, é algo que não deveríamos ter feito, mas fizemos. Trata-se de uma transgressão, de uma área na vida em que deliberadamente ultrapassamos os limites de Deus.

 

Acabe havia pecado em ambos os sentidos. Ele havia "deixastes os mandamentos do SENHOR" (1Rs 18.18). Tratava-se de um pecado de omissão. Acabe não estava fazendo o que deveria estar fazendo.

 

Além disso, havia "e seguistes os baalins" (1Rs 18.18). Esse tipo de adoração falsa era uma transgressão, um pecado de comissão. Acabe estava fazendo o que não deveria fazer.

 

As ações de Acabe revelam que ele estava em péssima forma espiritual. O rei deveria estar se arrependendo de seus pecados e clamando a Deus por misericórdia. Pelo bem de seu povo, deveria estar orando para que Deus retirasse sua ira.

 

Em vez disso, estava tentando sobreviver ao julgamento divino por força própria, percorrendo o país à procura de capim para seus animais (1Rs 18.5-6).

 

Segundo A. W. Pink, "ele não professa uma única sílaba sobre Deus, uma única palavra sobre os pecados terríveis que haviam provocado sua ira! Fontes, ribeiros e capim eram a única coisa que ocupavam os pensamentos de Acabe — alívio da aflição divina era tudo que ele queria".

 

Acabe se preocupava principalmente com seus animais. Seus cavalos eram de importância enorme para ele, pois acreditava serem essenciais para a segurança nacional.

 

Os registros de Salamanaser III informam que Acabe construiu duas mil carruagens quando a aliança síria lutou contra a Assíria em Qamar. Observe o contraste entre Obadias, que estava protegendo os profetas do Senhor, e Acabe, que estava preocupado em salvar seus cavalos!

 

O julgamento divino transformara Acabe em uma pessoa mais egoísta. Dava mais valor aos seus cavalos do que às outras pessoas, sem dúvida, porque sua superioridade militar lhe fornecia algum sentimento de segurança física.

 

A Bíblia adverte explicitamente contra esse tipo de postura. Segundo o salmista, "O cavalo não garante a vitória; a despeito de sua grande força, a ninguém pode livrar" (Sl 33.17) — uma advertência que as potências militares deveriam ouvir e aplicar, se fossem sábias.

 

Acabe pode ser contrastado com Davi, um rei segundo o coração de Deus. Davi também caiu sob o julgamento de Deus, mas "Vendo Davi ao Anjo que feria o povo, falou ao SENHOR e disse: Eu é que pequei, eu é que procedi perversamente; porém estas ovelhas que fizeram? Seja, pois, a tua mão contra mim e contra a casa de meu pai" (2Sm 24.17).

 

Davi foi um rei verdadeiro e líder espiritual. Ele aceitou a responsabilidade por seus pecados, reconhecendo que ele mesmo era o perturbador.

 

Acabe não era esse tipo de rei. Ele abdicou de sua responsabilidade espiritual, tornando-se assim um verdadeiro encrenqueiro, aquele que abandonou Deus e seguiu os baalins.

 

CONCLUSÃO: Não é difícil saber que exemplo devemos seguir. Se formos sinceros conosco mesmos e com Deus, veremos que, muitas vezes, somos nós mesmos a causa das nossas fracassos e dificuldades espirituais.

 

Se esse for o caso, você não conseguirá resolver sua situação CULPANDO OUTRAS PESSOAS, mas apenas confessando seu pecado.

 

É igualmente fácil saber que tipo de rei precisamos. Jesus demonstrou a melhor liderança espiritual quando tomou sobre si os nossos pecados na cruz.

 

"Que tua mão se volte contra mim", ele disse ao seu Pai. Apesar de Jesus não ter sido um perturbador, ele atraiu problemas para si mesmo para salvar seu povo.

 

Mais cedo ou mais tarde, a maioria faz o que Acabe fez e procura alguém que possa culpar por seus problemas. Jesus fez o contrário. Apesar de ter sido livre de culpa, ele mesmo assim assumiu a culpa por nossos pecados para nos salvar.

 

Infelizmente, Acabe nunca assumiu sua responsabilidade pela seca em Israel. Logo, surgiriam mais problemas.

 

Mas logo a graça de Deus poria um fim ao longo verão quente e seco. O que Deus disse a Elias no início da passagem foi uma promessa: "Vai, apresenta-te a Acabe, porque darei chuva sobre a terra" (1Rs 18.1).

 

*Ficamos na Rua Álvaro Pedro Miranda, 08, Campo Grande, Cariacica/ES. Perto da Faculdade Pio XII. Cultos quartas e sextas (19h30) e domingos 8h e 18h. 

De: 04/02/2018
Por: Jairo Carvalho

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