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Juízes: Um salvador urgente

PREGAÇÃO NO CULTO DE EXPOSIÇÃO BÍBLICA REALIZADOS ÀS QUARTAS-FEIRAS

 

Referência: Juízes 19: 1-30; 20: 1-48; 21: 1-25

 

INTRODUÇÃO: A primeira história no apêndice detalhado de Juízes (caps. 17 e 18) foi ligeiramente cômica e, ao mesmo tempo, bastante trágica. Depois de ler essa história, ficamos surpresos e chocados com a violência da segunda história, que é profundamente sombria e trágica do início ao fim.

 

Ela ultrapassa todos os acontecimentos sobre os quais lemos até agora, mesmo dos tempos de Abimeleque e Jefté. Pelos padrões de hoje, a história é repulsiva — e também era pelos padrões israelitas antigos, tanto que ficou na história de Israel como uma vergonha nacional (v. Os 9.9; 10.9).

 

Embora o caráter do texto seja bem diferente, seu tema é o mesmo de todo o livro de Juízes: a necessidade urgente de um Salvador (Jz 21.25).

 

I. UMA DEPRAVAÇÃO TOTAL.

 

1. Outro levita.

A frase inicial: "Naqueles dias não havia rei em Israel" (19.1), avisa que, como lemos em 18.1, o acontecimento à frente será bom aos olhos de Israel e abominação aos olhos do Senhor. Como na primeira parte do apêndice, uma seção considerável da narrativa gira em torno de um levita (19.1).

 

No entanto, enquanto nos capítulos 17 e 18 o levita estava preocupado com atividades religiosas que o autopromovessem, o levita do capítulo 19 é apresentado como tendo uma "concubina" (v. 1); uma esposa de segunda categoria, um objeto sexual (portanto, o levita era "marido", v. 3, e "senhor", v. 27, dessa mulher).

 

Apesar de Deus deixar claro em Gênesis 2.24 que casamento tem de ser entre um homem e uma mulher, nas épocas subsequentes muitos crentes tiveram várias esposas e concubinas (p. ex., Abraão, Gn 16.2,3). Mas, de Abraão até Salomão, incluindo Jacó, a POLIGAMIA sempre causou problemas e sofrimentos, sem exceção.

 

É uma vergonha saber logo de inicio que esse levita, supostamente separado como santo, foi tragado pela cultura mundana, tomando uma concubina. Como veremos, sua preocupação é criar relacionamentos que o autopromovam.

 

2. Minha mulher, minha propriedade.

A convivência do levita com sua concubina não é das melhores. O texto original diz que ela "age como prostituta" (Jz 19.2) e comete adultério — e, então, o abandona e volta para a casa do pai (em Belém, a cidade que o levita dos caps. 17 e 18 havia deixado). Essa atitude demonstra total alienação, pois deixar um senhor e um casamento (ainda que de segunda categoria) era terminantemente proibido.

 

Entretanto, o levita espera quatro meses antes de ir "convencê-la a voltar" (19.3). Alguns acham que o homem estava dando tempo para ela "esfriar a cabeça", mas isso é aplicar conceitos modernos ao texto.

 

É evidente que o levita não estava ansioso pela volta da concubina. Entretanto, mais tarde, ele quis sexo ou status (ou os dois). A passagem prova que esse não é um relacionamento terno e amoroso, nem duradouro, como são todos os relacionamentos baseados na luxuria.

 

Quando o pai da concubina viu o levita, "saiu alegremente ao seu encontro [...] e convenceu-o a ficar", persuadindo-o a permanecer cinco dias (v. 3-8, A21). Como a hospitalidade era urna exigência da cultura do Antigo Oriente Próximo, o tratamento do pai ao levita é, de certa forma, esperado.

 

Mas esses versículos o descrevem como gentil em excesso, quase desesperado. Por quê? O castigo por adulterar e abandonar o dono era severo — morte e desonra para a família. Pelo jeito, o pai quer ter certeza de que o levita não vai "impor-lhes punições" e fica aliviado ao saber que ele só quer levar a moça para casa.

 

É interessante notar que o texto não menciona que a mulher foi persuadida. A conversa toda é apenas entre seu pai e seu "marido". Não há evidência de que ela tenha conversado com o levita ou concordado em retornar com ele.

 

Tudo indica que o pai devolveu a filha sem que a moça tivesse escolha ou pudesse tomar sua própria decisão. Pai e "marido" tratam-na como objeto. Um quer evitar desgraça. O outro quer garantir favores sexuais. Ninguém se preocupa com a mulher.

 

É importante observar que, ao contrário das outras histórias de Juízes, essa não menciona ninguém pelo nome (a não ser o sacerdote, Fineias, no capítulo 20.28).

 

A anonimidade significa que esses homens e mulheres tipificam a todos em Israel. Era assim que os levitas viviam. Era assim que os pais agiam. Era assim que as mulheres agiam, sem muito pudor e caráter. Era assim que as mulheres eram tratadas. É um cenário sombrio e que só vai piorar.

 

3. Não façam essa loucura

Depois de cinco dias, à tarde, "o homem, com sua concubina [...] se levantaram para partir" (19.9). Apesar dos apelos do pai da concubina, eles vão em direção a Jebus — uma cidade que deveria ser dos benjamitas, mas, porque não obedeceram a Deus completamente, continuava nas mãos dos cananeus (1.21). Eles chegam a Jebus no fim do dia, e o servo sugere que parem ali (19.11).

 

Contudo, o levita não quer "entrar em uma cidade estrangeira cujo povo não é israelita" (v. 12). Apesar da "cananeização, ou seja mundanização" de Israel, é óbvio que ele acha que, como israelitas, não estarão seguros em Jebus.

 

O levita decide "tentar chegar a Gibeá ou a Ramá" (v. 13) — lugares benjamitas e, portanto, seguros. Quando "o sol se pôs", eles chegaram a "Gibeá, no território de Benjamim", para passar a noite ali (v. 14,15).

 

Imediatamente, percebemos que nem tudo vai bem. Eles não encontram ninguém com quem falar ou que os receba em casa (v. 15). A total ausência do tipo de hospitalidade praticada pelo pai da concubina é flagrante.

 

Apenas um velho efraimita — não benjamita — vai conversar com eles e, ao saber quem eram e para onde se dirigiam, convida-os a ir para sua casa (v. 16-21).

 

O versículo 20 sugere que há algo pior nessa cidade do que a indiferença: Façam o que quiserem, ele está dizendo, só não passem a noite na praça. Qual é o problema? Não estamos numa área isolada! Essa cidade não é cananeia! Estamos na terra que Deus entregou a Israel! Que perigo existe na praça?

 

O versículo 22 acaba com as nossas dúvidas. "... homens depravados da cidade [...] gritaram para o homem idoso [...]: Traga para fora o homem que entrou em sua casa para que tenhamos relações com ele."

 

Cheio de coragem, o velho saiu para lhes explicar duas coisas (v. 23): primeira, que isso é uma "loucura"; segunda, como "este homem é meu hóspede", tenho obrigação de ser hospitaleiro e dar-lhe proteção — o que os vizinhos propõem é duplamente "infame".

 

Mas, então, o velho faz uma proposta horrorosa: oferece sua própria filha e a concubina do levita a eles (v. 24). Para proteger seu visitante, ele entrega duas mulheres para serem estupradas. Por quê? Por que não ofereceu o servo do levita (afinal, o bando queria um homem)?

 

Porque, para o efraimita, assim como para o levita e o pai da concubina, as mulheres eram propriedades — menos valiosas e mais descartáveis do que um homem. Esse era o conceito que as culturas ao redor faziam das mulheres (embora, tragicamente, a concubina estivesse mais segura em Jebus, a cidade dos cananeus); e esse foi o conceito que os homens de Israel assimilaram, em vez de seguir o princípio da criação de Deus — de que homem e mulher foram ambos criados à sua imagem, ambos da mesma forma e intrinsecamente valiosos.

 

Esse episódio é tão horrível que devemos ter muito cuidado ao fazer comparações entre aquela época e a nossa. No entanto, talvez seja importante que nós, homens cristãos, nos perguntemos:

 

Será que estamos seguindo nossa cultura na maneira de ver (tratar ou considerar) as mulheres? Estamos correndo o risco de tratar as mulheres como propriedade, como coisas ou como objeto sexual?

 

4. A Sodoma israelita

O que acontece em Gibeá é bem parecido com o que aconteceu em Sodoma, segundo Gênesis 19.1-11. Desconhecidos chegam à cidade (anjos, em Gn 19). Alguns homens cercam a casa onde estão, esmurram a porta e querem fazer sexo com os visitantes. O hospedeiro implora que não façam tal coisa e oferece algumas mulheres em troca.

 

As únicas diferenças são que, em Sodoma, todos os homens fizeram parte do grupo; aqui, foram alguns "homens depravados". E em Sodoma os visitantes eram anjos, que simplesmente cegaram os agressores.

 

Em Gibeá, o levita "mandou a sua concubina para fora, e eles a violentaram e abusaram dela a noite toda" (Jz 19.25). Não nos esqueçamos de que isso aconteceu de verdade. O fato deve causar repulsa e revolta.

 

No Antigo Testamento, Sodoma é o melhor exemplo de rebelião contra Deus que traz sobre si, e com toda razão, o julgamento do Senhor. O paralelo entre aquela cidade pagã e a israelita Gibeá contém uma mensagem óbvia.

 

Temos aqui o povo de Deus, que recebeu as alianças feitas com Abraão e Moisés, a lei e os profetas, o tabernáculo, o Êxodo e, mais recentemente, os juízes-salvadores. Entretanto, apesar de tudo isso, os israelitas não são melhores do que os cananeus e as nações pagãs que não receberam nenhuma dessas bênçãos.

 

O povo de Deus mostra que é igual a todo mundo. A igreja do Antigo Testamento se transformou em Sodoma. Esse parece o quadro da igreja pós-moderna.

 

 

 

5. Não houve resposta

Os versículos seguintes são de cortar o coração em sua brevidade e pungência. De manhã (após uma noite inteira) a mulher é libertada (v. 25). Ela retornou a casa "caiu junto à porta e ali ficou" (v. 26). O levita a encontrou "caída à entrada da casa, com as mãos na soleira da porta" (v. 27). Ele falou com a mulher, "mas ela não respondeu" (v. 28).

 

A breve narrativa nos enche de compaixão pela concubina, porque, "Se algum ser humano já suportou uma noite de puro terror, foi ela [...] aquela noite deve ter sido para ela [...] tão escura quanto o próprio túmulo".

 

O narrador oferece muito mais detalhes sobre o levita. É inacreditável, mas, depois que "mandou a sua concubina para fora" (v. 25), o levita foi dormir e só "acordou pela manhã" (v. 27). Em vez de tentar encontrar a mulher, ele se prepara "para prosseguir viagem".

 

E, quando a vê "caída à entrada da casa, com as mãos na soleira da porta" (v. 27), ele simplesmente ordena que ela se levante e pé na estrada!, como se a mulher fosse um animal.

 

"Quando chegou em casa, pegou uma faca e cortou sua concubina em doze pedaços, membro por membro, e os enviou a todo o território de Israel" (v. 29). Isso é frieza e desumanidade sem tamanho para com a mulher que fora sua amante.

 

Por que o levita envia pedaços do corpo da mulher a todo o território de Israel, quando pareceu tão despreocupado com a violência brutal contra ela e sua morte subsequente?

 

Porque ele quer se vingar dos homens de Gibeá — não pela maneira como trataram a mulher (afinal, ele mesmo a levou para fora da casa), mas pela perda de sua propriedade. A reação de Israel é profundamente irônica (v. 30).

 

Eles acertam ao dizer que, em Israel, "nunca se fez nem se ouviu tal coisa"— mas não são apenas os gibeonitas que merecem repreensão pelo que fizeram; o levita também merece. O narrador deixa bem claro que os dois lados pecaram.

 

6. A verdade editada

No entanto, Israel não percebe isso. "Então todos os israelitas [...] saíram como um só homem e se reuniram em assembleia..." (20.1). Eles formaram um exército de quatrocentos mil homens (v. 2).

 

Pela primeira vez desde a liderança de Otoniel, os israelitas se unem. Mas se unem na revolta contra algo feito por seu próprio povo, dentro de suas fronteiras; e não dão ouvidos a Deus nem a juiz algum, e sim a um levita profundamente imoral (v. 3).

 

A narrativa do levita sobre o acontecimento é de um egoísmo impressionante, muito bem editada para esconder todo e qualquer erro de sua parte.

 

Ao relatar onde a atrocidade aconteceu (v. 4), ele afirma que "os homens de Gibeá (em vez de dizer que alguns "homens depravados", 19.22) tentaram me matar" (20.5), quando de fato eles queriam violentá-lo (19.22).

 

O levita omite que ele sacrificou a concubina friamente, em vez de lutar para protegê-la, e apenas diz que eles "violentaram a minha concubina" (20.5). Ninguém que ouvisse a história suspeitaria que ele contribuiu para a morte da moça.

 

O importante é que, embora os homens de Gibeá tenham mesmo sido vilões, pecadores declaradamente abomináveis, o comportamento moral do levita não é nem um pouco mais digno, embora seja mais sutil.

 

Esse acontecimento histórico exemplifica de forma vívida os primeiros dois capítulos e meio de Romanos, nos quais Paulo afirma que o mundo evidentemente devasso e sem Deus está perdido em pecados, mas salienta (Rm 2) que a pessoa aparentemente "boa", moral e religiosa também está perdida em pecados.

 

No íntimo, nenhum dos grupos quer saber de Deus nem dos outros. Paulo resume tudo em uma afirmação categórica: "Não há nenhum justo, nem um sequer [...] Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis" (Rm 3.10,12). Ninguém é justo nessa história. Ninguém é justo neste mundo.

 

7. Como reagirmos?

Como devemos reagir aos acontecimentos registrados em Juízes 19? Lamentar profundamente. Esse é o povo de Deus. São nossos antepassados espirituais e, até certo ponto, revelam quem nós somos.

 

Talvez guardemos na alma segredos que, de alguma forma (talvez mínima), lembrem o comportamento dos gibeonitas. É possível que não tenhamos cometido atrocidades, mas (como o levita) não as impedimos de acontecer, e nossa inércia favoreceu o erro.

 

Normalmente contamos a nós e aos outros uma história bem mais aceitável sobre nós mesmos e nosso comportamento do que a verdade toda revelaria. E, como o livro de Juízes tem nos alertado repetidamente, todos nós, conscientemente ou não, nos deixamos moldar e escravizar pela cultura em que vivemos, e não pelo Senhor Jesus, cujo nome invocamos, exatamente como Israel fazia.

 

O texto de Juízes 19 deve nos sensibilizar e nos fazer lamentar — pelos israelitas e por nós mesmos. "Não há nenhum justo" porque vivemos como se não houvesse "rei" (19.1; 21.25).

 

Precisamos de um Rei que nos resgate, guie e transforme. Só podemos apreciar o evangelho — pelo qual, em Jesus, temos esse Rei — se primeiro entendermos que somos mais depravados e sem esperança do que jamais imaginamos.

 

II. SOLUÇÃO PIOR QUE O PROBLEMA.

 

1. Minha família, meu deus.

Os israelitas estão unidos como nunca estiveram desde o capítulo 3. São "como um só homem" (20.8,11), dispostos a formar e sustentar um exército contra a cidade de Gibeá, para "dar a eles o que merecem" (v. 9,10).

 

Sansão, o último juiz, lutou sozinho contra os filisteus, mas agora Israel se une na determinação de acabar com seu próprio povo.

 

Antes, contudo, enviam homens a Benjamim, para pedir que lhes entreguem os estupradores, pois querem eliminar "esse mal de Israel" (v. 12,13), Entretanto, isso cria mais problemas.

 

Os benjamitas "não quiseram ouvir" (v. 13) e, ao invés disso, se agrupam em Gibeá "para lutar contra os israelitas" (v. 14); reuniram 26.700 soldados, incluindo tropas de elite (v. 15,16), para enfrentar quatrocentos mil israelitas (v. 17).

 

Por que a tribo simplesmente não entrega os culpados e deixa que a justiça seja feita? Um dos ídolos mais perniciosos ao relacionamento humano é o nosso sangue ou parentesco, a atitude que defende minha família, meu cônjuge ou meu país, estejam eles certos ou errados. Isto em sido um grande pecado principalmente entre marido e mulher.

 

Embora os bons costumes e a decência confirmem que os homens de Gibeá infringiram todos os padrões morais, os benjamitas se fecham e não permitem que ninguém de fora acuse alguém de dentro.

 

Quando colocamos parentesco, comunidade ou elo racial acima do bem comum e da ordem moral transcendente, transformamos "nosso próprio povo ou família" em ídolo.

Entendemos agora como o pecado se multiplica. A insensibilidade do levita e a libertinagem sexual de alguns desordeiros locais se transformaram em guerra civil de grande proporção por causa da falta de sinceridade do levita e do orgulho dos benjamitas.

 

2. Um massacre por vingança

O versículo 18 relata um acontecimento trágico. No início do livro de Juízes, quando Israel começou a se estabelecer em Canaã, os israelitas perguntaram ao Senhor: "Quem de nós será o primeiro a atacar [...]?" (1.1) pela herança que lhes cabia, para que o povo de Deus vivesse na terra de Deus e adorasse a Deus diante de outros povos, mas sem se casar com eles. Deus respondeu: "Judá" (v. 2).

 

Agora Israel pergunta a Deus: "Quem de nós irá lutar primeiro?". Novamente Deus responde: "Judá". Acontece que eles não vão lutar contra inimigos de Deus, e sim contra o povo de Deus.

 

O escritor está mostrando que o fracasso deles na conquista de Canaã e na caminhada com Deus levou à guerra civil e ao FRATRICÍDIO. A guerra civil começa nos versículos 19 e 20. Os benjamitas vivem nas colinas, o que ajuda na defesa.

 

Apesar de Israel ser muito superior em números, pode mandar apenas uma ou duas tribos de cada vez, no primeiro e segundo dias (v. 20,24), para lutar em um espaço estreito defendido pelos benjamitas.

 

Nas duas ocasiões, os benjamitas saem vitoriosos (v. 21,25). Embora nos dois dias Deus tenha indicado quem deveria ir e confirmado se haveria luta (v. 18,23), suas respostas não são garantia de sucesso, como ocorreu no passado (na verdade, Deus está dizendo: Vão, porém não irei com vocês, por causa dos vossos pecados).

 

Os israelitas sofrem uma grande humilhação. Estavam tão convictos da justiça de sua causa que, de início, não perguntaram a Deus se deveriam lutar, mas simplesmente quem deveria lutar (v. 18). Na verdade, a pergunta feita no versículo 23 não permite um não como resposta.

 

Agora, depois da segunda derrota, eles choram, jejuam, oferecem sacrifícios (v. 26) e, por meio do sumo sacerdote, perguntam se devem lutar contra seu irmão Benjamim novamente (v. 27,28).

 

Nesses poucos versículos, eles vivem como Israel deveria viver. E "o SENHOR respondeu: Vão, pois amanhã eu os entregarei nas suas mãos" (v. 28).

 

Dessa vez, Israel preparou emboscadas (v. 29), atraiu a principal defesa benjamita para fora de sua fortaleza (v. 30-33) e abriu espaço para atacar com todo o seu poder (v. 34); então Deus lhes garantiu a vitória (35,36).

 

Enquanto a batalha prosseguia nas colinas, os homens da emboscada "mataram toda a cidade [de Gibeá] ao fio da espada" (v. 37). Os benjamitas pensaram que estavam vencendo (v. 39), mas, na verdade, já haviam perdido (v. 40,41).

 

 Israel ataca o exército benjamita e em pouco tempo todos os homens de Benjamim, com exceção de seiscentos, são mortos (v. 42,47). A vitória é completa.

 

Mas a carnificina prossegue. Os israelitas foram atrás dos benjamitas e "mataram ao fio da espada tudo que encontraram" (v. 48). Todos os homens, mulheres, crianças e até mesmo os animais são abatidos. Isso não é justiça, é genocídio.

 

3. Os dois olhos da amargura.

A justiça, no máximo, exigiria a execução daqueles depravados de Gibeá e possivelmente dos benjamitas que lutaram a favor deles. Qual foi a justificativa para o massacre de toda a sociedade benjamita?

 

Isso é obra da amargura — que demanda não um olho, mas dois como vingança por cada olho perdido.

 

A raiz de amargura sempre desemboca em vingança. No âmbito tribal ou nacional, essa vingança pode tomar as proporções dos acontecimentos de Juízes 20.

 

No âmbito individual, talvez pareça menos extrema. Contudo, a destruição ainda é real, embora em menor escala. O único jeito de evitar a amargura é praticar o perdão. Nada mais consegue extirpar o ressentimento e a raiva.

 

Como conseguimos isso?

Primeiro, temos de entender o que é perdão. O perdão é concedido antes de ser sentido (Lc 17.3-6). Acima de tudo, perdoar é prometer... não trazer à tona o erro da outra pessoa, não o contar a terceiros e não pensar mais nele.

 

É uma promessa de não guardar mágoa contra o outro nem lhe desejar mal nenhum. Temos controle sobre essas coisas. Não conseguimos impedir a chegada de um pensamento, mas podemos impedir que faça morada em nossa cabeça.

 

Segundo, temos de entender como o perdão é possível:somente porque vemos e sentimos a realidade do perdão monumental e valioso que Deus operou por meio de Cristo (Mt 18.21-35).

 

Reconhecer a dívida que temos com Deus é a única maneira de colocar em perspectiva a dívida que alguém tem conosco.

 

O perdão oferecido por Cristo: (a) nos dá humildade emocional para perdoar (Quem sou eu para não perdoar; se sou um grande pecador?)

(b) nos oferece recursos emocionais para perdoar (O que essa pessoa me roubou de verdade, quando tenho tanto em Cristo?).

 

Se nos apoiarmos de coração no perdão de Cristo e nos determinarmos a perdoar os outros, aos poucos uma sensibilidade para perdoar tomará conta de nós.

 

Terceiro, temos de perdoar no coração antes de procurarmos nos reconciliar com quem nos prejudicou(Mc 11.25). Desse modo, não ficaremos muito zangados durante a conversa nem tentaremos "marcar mais pontos" ou humilhar a pessoa.

 

O objetivo da reconciliação é consertar o relacionamento. Para isso, temos de admitir todos os erros que cometemos, depois apontar qualquer erro cometido contra nós e, então, pedir que haja reconciliação.

 

Ninguém fez isso — nem o levita, nem os israelitas, nem os benjamitas. Os resultados foram catastróficos até agora, e ainda serão piores.

 

3. O problema do juramento

"Os homens de Israel haviam feito um juramento em Mispá", quando se reuniram para ouvir a história do levita e decretar juízo sobre Gibeá. Foi um juramento severo: "... Nenhum de nós dará sua filha em casamento a um benjamita" (21.1). Isso criou um grande problema para os israelitas.

 

Eles haviam matado todas as mulheres benjamitas e não poderiam dar suas filhas em casamento aos seiscentos sobreviventes; portanto, estavam exterminando uma tribo inteira. Como lamentaram para Deus (v. 3): "Por que teria de faltar hoje uma tribo em Israel?".

 

É incrível que tenham chorado amargamente perante Deus (v. 2), perguntando: "Por que aconteceu isso?", como se a culpa fosse do Senhor.

A situação foi causada pelo juramento severo que fizeram, seguido do massacre imposto aos seus irmãos e irmãs benjamitas. Eles sabiam muito bem por que isso aconteceu! No entanto, é mais fácil culpar Deus do que fazer uma autorreflexão.

 

Como não há autoexame, não aprendem com o erro. Quando constroem um altar e oferecem sacrifícios (v. 4), fazem outro juramento imprudente: "qualquer que deixasse de se reunir perante o SENHOR em Mispá seria morto" (v. 5).

 

Depois de conversarem sobre o problema (v. 6,7), descobrem que "ninguém de Jabes-Gileade havia ido ao acampamento para a assembleia" (v. 8,9, A21). Existe uma solução em potencial aqui.

 

Uma vez que os homens de Jabes-Gileade não foram a Mispá, não haviam prometido não dar suas filhas em casamento aos benjamitas.

 

Para manter o juramento, os israelitas enviaram um pequeno exército àquela cidade (v. 10), ordenando que matassem "todos os homens, e também toda mulher que já tiver conhecido algum homem intimamente" (v. 11), e levassem quatrocentas virgens para se casarem com benjamitas (v. 12-14).

 

"Entretanto, ainda não havia mulheres suficientes" para os seiscentos benjamitas restantes. O povo lamentou, "pois o SENHOR [da perspectiva deles] havia aberto uma rachadura entre as tribos de Israel" (v. 15). Mais uma vez, mencionam o erro causado pelo juramento (v. 16-18).

 

Então, outra solução se apresenta. "Todo ano se realiza a festa do SENHOR" nas proximidades (v. 19), e eles ordenam aos benjamitas: "... Ide, escondei-vos nas vinhas [...] cada um sairá e raptará uma mulher das moças de Siló..." (v. 20,21).

 

A engenhosidade do plano é que, porque as moças seriam raptadas, os pais não quebrariam o juramento, "pois não lhes destes vossas filhas" (v. 22). Estão tentando costurar o erro e não confessa-lo para resolver a questão definitivamente.

 

"E assim fizeram os benjamitas..." (v. 23, A21). A assembleia que se reuniu para fazer justiça a uma mulher violentada e morta acaba planejando e executando a matança de uma cidade inteira, além do rapto de moças de duas cidades israelitas.

 

A consciência então é aliviada superficialmente e ai todo mundo volta para casa (v. 24), menos as mulheres solteiras de Jabes-Gileade e Siló.

 

 

4. Soluções que causam problemas

O narrador deixa claro, mais uma vez, que aquele povo não tinha um rei dado por Deus; cada um "fazia o que lhe parecia certo" (v. 25, A21). Do começo ao fim dos dois últimos capítulos de Juízes, Israel não busca a orientação do Senhor.

 

Os israelitas ignoram a palavra de Deus e somente o consultam no tabernáculo depois de tomarem uma decisão errada. São pessoas que tomam a decisão errada, e depois querem orar pedindo ajuda.

 

Vemos aqui uma cultura funcionalmente pagã. Na melhor das hipóteses, as decisões são baseadas no raciocínio humano e, na pior, são tomadas às pressas e com base na vingança.

 

Cada passo de Israel é dado com a intenção de eliminar o mal (20.13) e resolver o problema gerado pelo comportamento anterior; cada passo, como se vê, causa problemas maiores ainda. Deus serve apenas para levar a culpa por seus enganos.

 

Esse é o erro de aplicarmos soluções humanas ao que é essencialmente um problema espiritual: o problema intratável (falando da perspectiva humana) do mal. Nenhuma campanha militar ou política governamental resolve um problema que habita no coração humano e brota do coração humano.

 

Somente o arrependimento e um avivamento de fé em Deus resolve a questão. Mas Israel nunca reconheceu que estava debaixo de opressão e escravidão, mesmo estando sob a tirania de um carrasco estrangeiro. Viviam na escuridão espiritual, mas nunca perceberam isso.

 

Esses capítulos retratam bem como a nossa sociedade que não é centrada em Deus funciona: adoram algo que não é o Deus verdadeiro; decidem o que parece correto, lógico e razoável aos próprios olhos; perguntam-se por que as coisas nunca melhoram; e finalmente argumentam que Deus, caso ele exista mesmo, não se importa muito com as pessoas.

 

Obviamente esse também é um retrato do povo de Deus — que hoje é a igreja. Nenhum pagão foi culpado de opressão, estupro, matança, carnificina e sequestro. Tudo foi obra de Israel. No livro de Juízes inteiro, e especialmente no final dele, o pior inimigo de Israel é Israel. Muitas vezes, infelizmente, a mesma conclusão se aplica ao povo de Deus hoje:

 

Nenhum outro livro do Antigo Testamento oferece à igreja atual um espelho tão revelador quanto Juízes. Esse livro é um alerta para a igreja agonizante em seus próprios feitos egoístas.

 

Em vez de atender ao chamado de lideres verdadeiramente cristãos e permitir que Jesus Cristo seja Senhor da igreja, congregações e seus líderes, ao redor do mundo, estão fazendo o que é correto aos seus próprios olhos.

 

É muito fácil culpar os outros pela fraqueza da igreja. Analisamos as culturas ao nosso redor, que vivem de modo tão diferente do nosso e nos convidam a segui-las.

 

Perguntamo-nos por que Deus não nos dá unidade ou não nos manda um avivamento. Analisamos tudo e todos, menos a nós mesmos. Todavia, esses capítulos de Juízes nos forçam a fazer exatamente isso.

 

5. O Rei de que precisamos

No entanto, o livro de Juízes também mostra que, embora sejamos o problema, não podemos ser nossa própria solução. Temos de encontrar um rei, exatamente como Israel fez.

 

Alguns comentaristas acham que o autor de Juízes é um APOLOGISTA do rei Davi, que tenta propagar a importância do reinado davídico e dar-lhe apoio.

 

É como se ele dissesse: Reparem na insuficiência da natureza humana! Precisamos de mais do que esses comandantes militares carismáticos e esporádicos — precisamos de um rei permanente.

 

Pode ser que o autor esteja querendo promover Davi, mas, de qualquer forma, ele demonstra poderosamente a insuficiência da natureza humana! O livro de Juízes não é um "livro de virtudes" ou uma série de "exemplos morais".

 

Os juízes são apenas "heróis da fé" (Hb 11.32-34); o heroísmo deles reside unicamente no fato de confiarem em que Deus trabalharia por eles, neles e por meio deles, apesar do que eram, e que ele os usaria, em sua graça, para resgatar seu povo igualmente imperfeito.

 

O autor nos convence de que precisamos de um salvador — mas de que tipo? Talvez Deus esteja usando o autor de Juízes para nos mostrar realidades que estão além das intenções conscientes e deliberadas desse autor.

 

Deus nos mostrou que precisamos de um libertador; porém, no fim do livro, nos perguntamos se um simples rei humano dará conta do recado.

 

As histórias de 1 e 2Reis e de 1 e 2Crônicas apresentam uma longa relação de reis humanos que, na melhor das hipóteses, não levaram o povo a amar e obedecer mais a Deus e, na pior delas, afastaram-no ainda mais desses alvos. Ao terminar a leitura desses livros, descobrimos que precisamos de alguém mais poderoso que o rei Davi.

 

Em primeiro lugar, quando chegamos no fim de Juízes —especialmente na vida de Sansão —, notamos que precisamos de um libertador que venha sem ser chamado, uma vez que os seres humanos não estão buscando a Deus de verdade (Rm 3.11; 2Tm 2.13). Não seremos capazes de fazer a escolha; ele terá de nos escolher (Jo 15.16).

 

Em segundo lugar, entendemos que esse libertador terá de fazer tudo sozinho, pois não temos nada com que contribuir para a nossa salvação (Ef 2.4,5; Tt 3.4-6).

 

Em terceiro lugar, deparamos com uma alusão misteriosa ao fato de que esse libertador nos salvará por meio da fraqueza, de uma "derrota vitoriosa" — por intermédio de sua morte, e não apenas de sua vida (Fp 2.1-11).

 

Em quarto lugar, precisamos de um rei que possa eliminar o mal (Jz 20.13) do nosso coração, e não apenas da nossa sociedade. Certamente o autor de Juízes falou com mais verdade e sabedoria do que tinha em mente!

 

Precisamos de um rei, porém um rei mais extraordinário e com maior poder de libertação do que qualquer ser humano.

 

Todos nós devemos buscamos um rei, alguém que nos governe, alguém que nos resgate. Somente uma pessoa oferece o que buscamos. Temos de buscar o Rei mais poderoso, o Juiz por excelência — ou serviremos a um rei e juiz falso.

 

CONCLUSÃO:

1. Em que situações você acha mais cômodo editar a verdade sobre seus pensamentos, palavras ou ações?

2. Existem em sua vida segredos bem escondidos dos quais você precisa se arrepender, confessando-os e lamentando-os, sabendo que, apesar do que somos, Deus nos recebe com graça infinita?

3. Como será nossa compreensão do "evangelho" se não admitirmos que somos pecadores por natureza?

4. De que maneira o conceito de "família/povo/tribo" como ídolo repercute em você e também o desafia?

5. Saber que Cristo o perdoa influencia seu modo de tratar os outros? Por quê? Pensar no perdão que Cristo oferece faz você se lembrar de alguém a quem precisa perdoar?

 

6. Se tivesse de resumir a mensagem do livro de Juízes, o que você diria?

De: 23/02/2017
Por: Jairo Carvalho



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